Monday, April 16, 2007

Entrevista ao website Clube de Jazz

Entrevista concedida em Los Angeles por Arnaldo DeSouteiro, via e-mail, ao historiador Wilson Garzon, editor do website Clube de Jazz (versão integral), em 24 de Outubro de 2005.

Nessa entrevista concedida ao editor do site Clube de Jazz Wilson Garzon, o jornalista, produtor e empresário Arnaldo DeSouteiro fala sobre suas influências, o processo de produção musical e da música instrumental brasileira, agora e no futuro.

1 - Quando é que surgiu em você a vocação de ser produtor musical?

Eu usaria o termo "a work in progress" para definir meu trabalho. Então a resposta vai ser um pouco longa, porque as coisas estão interligadas. A vocação para ser produtor eu não sei exatamente quando surgiu, mas a "vocação" para a música veio dos meus pais, especialmente da minha mãe, Delza Agricola, que foi uma grande compositora e pianista clássica, além de ter sido a primeira maestrina, a primeira "female conductor" brasileira formada pelo Conservatório Brasileiro de Música. Infelizmente, ela cometeu o erro de abandonar a carreira de concertista quando eu nasci. Mas ela também adorava jazz, especialmente big-bands de Glenn Miller, Tommy Dorsey, Artie Shaw, Harry James e Woody Herman, então eu nasci e cresci ouvindo música clássica e jazz na mesma proporção. Porque meu pai, pianista amador, também tinha uma fantástica coleção de discos de Art Tatum, Hazel Scott, Art Van Damme, George Shearing, Frank Sinatra, Teddy Wilson, Andre Previn, Ella Fitzgerald (lembro que eu adorava os arranjos de Sy Oliver e Benny Carter para o disco "Sweet and hot", lançado pela Decca em 1955, e que eu comprei em CD na minha última viagem ao Japão). Estudei piano clássico, harmonia e teoria musical dos 4 aos 10 anos, quando me apaixonei simultaneamente por bossa-nova e pelo jazz-rock de Miles Davis, Weather Report, Chick Corea, John McLaughlin etc. Comecei a comprar compulsivamente os discos desses mestres e também tudo que o Creed Taylor, meu produtor favorito, havia produzido para os catálogos dos selos Verve, A&M, Impulse e principalmente a CTI. O principal motivo residia nos arranjos de Claus Ogerman, Don Sebesky, Eumir Deodato, Oliver Nelson, Gary McFarland, David Matthews, Lalo Schifrin e Bob James, que faziam orquestrações suntuosas, usando elementos da música clássica no jazz, não raro adapatando obras de Debussy, Ravel, Stravinsky, Fauré e muitos outros. Aquele som refinado, sofisticado, sempre me fascinou, é condizente com a minha personalidade e com meu estilo de vida, não posso negar. Bom, resumindo a trajetória: com 14 anos, antes mesmo de me formar em Jornalismo pela PUC-RJ, eu já escrevia para jornais (mantenho uma coluna há 26 anos no jornal carioca Tribuna da Imprensa, e lamento até hoje não ter tido a oportunidade de conhecer pessoalmente o dono, o brilhante jornalista Hélio Fernandes) e revistas (fui correspondente da "Keyboard" por cerca de 10 anos, além de colaborar com várias outras pelo mundo afora). Cresci convivendo com Luiz Bonfá, João Donato, Eumir Deodato, Herbie Hancock, Wayne Shorter, João Gilberto, Hugo Fattoruso, Michel Colombier, Flora Purim, Airto Moreira, Stellinha Egg, o pessoal do Azymuth e até a pianista clássica Magda Tagliaferro, amiga da minha mãe. E uma pessoa muito importante nesse processo foi o Maestro Gaya, que me levava para assistir as gravações dele no antigo estudio da EMI-Odeon. Aos 17 anos eu já estava no terceiro casamento, e comecei a produzir um disco da minha esposa, Yana Purim (irmã da Flora) para a antiga RCA. Reuni um time de feras: Donato, Alex Malheiros, Pascoal Meirelles, Victor Biglione, Sidinho Moreira, Dave Frishberg e outros grandes músicos de Los Angeles. E por sorte, eu conheci outro craque, o produtor Orrin Keepnews, que tinha sido dono da Riverside e estava trabalhando na Fantasy Records. Através dele, que sabia do meu conhecimento sobre o Creed Taylor, fui indicado para produzir compilações da CTI para a gravadora japonesa King Records. A partir dali, fiquei apaixonado pelo trabalho em estúdio e não parei mais. Me considero um privilegiado por ter tido a honra de trabalhar com vários artistas que eu admirava desde criança: Bonfá, João Gilberto, Hancock, Tom Jobim, Dom Um Romão, Steve Swallow, Alphonso Johnson, Larry Coryell, Ron Carter, Lew Soloff, George Young, Mario Castro-Neves, a lista é imensa.

2 - E a Jazz Station Records, quando e porque foi criada?

Em meados dos anos 80 eu comecei a enveredar pela área de marketing e passei a ser chamado para prestar consultoria para diversas empresas. Não apenas gravadoras, mas também emissoras de rádio (criei o programa "Jazz Espetacular" na Tupi-FM em 83) e televisão, como a Rede Manchete, na qual trabalhei de 84 a 86 como supervisor musical e entrevistador, ao lado da Milena Ciribelli, em uma série de especiais dirigidos por Gregório Rubin focalizando Dizzy Gillespie, Tony Bennett, Chuck Mangione, Miles Davis, Airto & Flora etc. No início dos anos 90, essa demanda aumentou. No Brasil, à convite do meu querido amigo e incentivador João Gilberto, fiz o roteiro, os textos e até a mixagem do especial "João & Antonio", dirigido por Walter Salles Jr. e Boninho para a TV Globo em 92, o último encontro do João com Tom Jobim, um projeto que me ocupou durante seis meses. Também para a Globo, na mesma época, preparei uma série chamada "Minuto da Bossa". No exterior também havia tanto trabalho que eu comecei a não dar conta mais de cuidar de tudo isso sozinho - produzir discos, escrever roteiros, prestar consultoria, e ainda fazer programações de rádios e companhias aéreas, inclusive para a Varig entre 1983 e 1998. Então, resolvi criar a Jazz Station Marketing & Consulting, com sede aqui em Los Angeles, e da qual a Jazz Station Records, conhecida pela sigla JSR, é uma das divisões.

3 - Além da sua gravadora, você faz produções avulsas?

Muito mais do que eu gostaria...(rssss) Outro dia eu dei uma visitada em websites tipo Artists Direct e All Music Guide, e contei mais de 250 discos com meu nome como produtor - obviamente somadas as compilações e reedições. A sorte é que eu me divirto muito trabalhando, me sinto privilegiado por poder "trabalhar" fazendo o que eu mais amo, que é fazer música. Em alguns casos, a JSR se torna parceira de outras gravadoras. Às vezes, ela é apenas contratada por um valor fixo ou royalties. Quando há boa vontade, sempre se dá um jeito de se chegar a um acordo. Estou sempre recebendo convites para produções avulsas, para outros selos ou artistas independentes. Mas sou bastante seletivo. De cada dez convites, aceito um. Não consigo lidar com mediocridade e burrice, tenho horror à gente invejosa, recalcada, complexada, pessimista, preconceituosa. Sei lidar tranquilamente com neuróticos de vários tipos, mas não aceito conviver com o que eu chamo de "gente por acaso". Também não trabalho com pessoas que usem drogas, então tudo isso serve como "filtro" para que eu me aborreça o mínimo possível numa produção, e por consequencia me divirta ao máximo. Outra coisa que eu gosto muito é de produzir reedições de discos de altíssima qualidade que estavam esquecidos. Uma vez, em uma entrevista, eu disse que adorava trabalhar com "artista morto" e fui mal interpretado (rssss). Me orgulho muito dos relançamentos que produzi para a série "RCA 100 Anos de Música", em 2001, quando reeditei discos de Raul de Souza, Sivuca, Rosinha de Valença, Tamba Trio, Ivanb Lins, Tom Jobim, Miucha, Carlos Lyra, João Donato, Flora Purim, Antonio Adolfo com o Trio 3-D etc. Dá para imaginar a emoção e a responsabilidade de ter, em suas mãos, a fita master de um disco antológico do Ron Carter, do Hank Crawford, do João Gilberto, do Miles Davis? Quando a JSR se associou à Universal para produzir, em 1998, a primeira reedição oficial do disco de estréia do Eumir Deodato, "Inútil Paisagem", gravado em 1964, eu fiquei emocionadíssimo quando recebi os tapes originais no estúdio. Você, que é um cara sensível e apaixonado pelo que faz, com certeza consegue imaginar essa sensação.
Tenho produzido também diversas compilações que se tornaram grande sucesso de vendas e se transformaram em séries tipo "Brazilian Horizons" (Milsetone), "CTI Acid Jazz Grooves" (CTI) e "A Trip to Brazil" (Verve), todas voltadas para o mercado internacional. De vez em quando eu encontro tempo para aceitar alguma encomenda do Brasil, como os 42 discos da série "Fantasy 20-Bit Digipack", elaborada entre 2002 e 2004 à convite da BMG.

4 - Como analisa o mercado da música instrumental brasileira no exterior?

Praticamente acabou, se é que algum dia existiu. Tanto que os representantes dessa corrente, que tentaram morar aqui nos EUA, já voltaram quase todos. Sair do Brasil para imitar David Sanborn ou Lee Ritenour é uma atitude equivocada, sem sentido. Claro que existem exceções, como o Romero Lubambo, um craque, mas que não vive de "música instrumental brasileira". Ele paga as contas com as gravações que faz para a Diana Krall, para a Dianne Reeves. O Paulinho da Costa, nosso percussionista mais bem sucedido comercialmente por aqui, ficou rico gravando com Quincy Jones, Madonna, Michael Jackson. Já imaginou se ele fosse purista e resolvesse carregar a bandeira de "música instrumental"? Estaria de volta a algum morro do Rio. Na verdade, essa questão toda é muito complexa. Até porque esse rótulo de música instrumental só existe no Brasil. Os críticos ardilosos, na falta de algo melhor para fazer, inventaram um suposto pseudo-estilo que foi batizado de "música instrumental" nos anos 80. Aparentemente, a intenção era boa, para ajudar a divulgar o trabalho dos músicos, que embracaram cegamente nessa canoa furada. Tanto que não restou quase nada do que foi produzido com esse carimbo de "música instrumental". Até as gravadoras "especializadas no gênero", como a Som da Gente, fecharam. E olha que o Walter Santos, dono da companhia, é um cara rico e aguentou o quanto pôde. Mas o prejuízo era imenso! Os críticos, sabendo que alguns músicos não gostam de trabalhar para cantores, apostaram numa cisão ainda maior, e alguns caíram de gaiatos nessa armadilha, entraram nessa farsa. Foi oficializada uma oposição entre "música instrumental" e "cantada", como se toda produção instrumental fosse de alta qualidade, e toda música vocal, uma droga. Nunca vi raciocínio mais torto! Coisas de baixa qualidade existem em qualquer gênero, até no jazz e na música clássica. O resultado é que, hoje - somente no Brasil, claro, por ser um país de cabeça para baixo, onde imperam as inversões de valores - qualquer um que toque cavaquinho ou pandeiro mediocremente é saudado como herói nacional, exemplo de "resistência cultural" e outras baboseiras. Então, voltando ao cerne da sua pergunta, posso garantir que o prestígio da música brasileira no exterior se deve ao talento de gênios como Laurindo Almeida, Luiz Bonfá, João Gilberto, Tom Jobim, Dom Um, Airto, Raul de Souza, Sivuca e Hermeto, sábios que nunca fizeram distinção entre música instrumental e vocal.

5 - E o avanço da internet no mercado musical, pode no futuro, prejudicar o mercado da JSR?

Até agora pelo menos não afetou em nada. O jazz ocupa, atualmente, menos de 1% do mercado total nos EUA. Mas é um público de alto poder aquisitivo e muito exigente, de uma faixa etária menos ligada em modismos tipo MP3 e Ipod. No Japão, a garotada toda está fazendo download de música, as vendas despencaram na área pop. No mercado de jazz, porém, a queda foi insignificante. Ainda mais no Japão, onde os connoisseurs adoram ler textos de contracapa, fazem questão de uma apresentação gráfica luxuosa. Um colecionador desses vai ficar ouvindo música baixada de computador...De qualquer modo, eu procuro estar sempre me renovando esteticamente, gosto de surpreender o mercado, ao invés de ficar insistindo numa mesma tendência. Tenho um instinto de pioneiro e gosto de segui-lo porque sempre dá certo artisticamente, embora às vezes o público demore a entender o produto. Por exemplo: quando produzi, para a Ithamara Koorax, os primeiros discos de bossa-nova com roupagem de acid-jazz ("Wave 2001", gravado em Tokyo em 96) e drum & bass ("Bossa Nova Meets Drum 'n' Bass", em Londres e NY, em 98), as pessoas no Brasil ainda não tinham a menor idéia do que eram esses estilos. E nenhuma gravadora se interessou em lançar esses discos por lá! E olha que venderam mais de 100 mil cópias no exterior! Hoje em dia, quando o drum & bass já saiu de moda na Europa, fala-se dele no Brasil como se fosse a maior novidade, desde que apareceu a Fernanda Porto posando como pioneira 5 anos depois! O tal do "nu jazz" que começa a ser falado no Brasil, eu já usava como título do último disco do Dom Um, "Nu Jazz Meets Brazil", em 2002...Esse caráter de vanguarda, no estilo de ajudar a criar novas tendências, certamente colabora para fazer com que a JSR tenha um "cult following" muito forte e fiel. Tanto que, há quatro anos seguidos, vem sendo apontada como uma das 10 melhores gravadoras de jazz do mundo pela Down Beat, junto com selos poderosos tipo Blue Note, Verve e ECM.

6 - E o processo de gravação de um cd nos USA é mais fácil que no Brasil? Quais são os pontos fortes e fracos?

Depende de cada caso. Eu já gravei em todas as partes do mundo: Tokyo, NY, LA, Londres, Mônaco, Colônia, pelos motivos mais diversos. Claro que as condições de gravação são melhores fora do Brasil, em termos de qualidade de estúdios, especialmente por causa das grandes salas indicadas para se obter uma boa acústica. Mas, graças a alguns engenheiros excepcionais, como os irmãos Marcelo e Marcos Sabóia, o Geraldo Brandão, e o Toninho Barbosa, que é o "Rudy Van Gelder brasileiro", às vezes é possível superar as deficiências técnicas dos estúdios e alcançar um excelente resultado dentro do mais elevado padrão internacional. No caso dos discos da Ithamara, que vendem bem e tem um orçamento razoável, acaba sendo compensador gravar algumas faixas no exterior, inclusive aproveitando as viagens dela para shows. Sem falar que sai mais barato gravar com músicos estrangeiros nos países deles, ao invés de pagar passagem para eles irem gravar no Brasil. Entretanto, não existe regra específica. O disco do trio da Paula Faour, por exemplo, foi gravado "ao vivo" com o Gusmão e o Dom Um num estúdio em Santa Teresa, no Rio, e o engenheiro Carlos Fuchs, por ser pianista, obteve um som de piano acústico magistral.

7 - Quais são os próximos lançamentos da JSR?

Eu gosto de "trabalhar em silêncio", aprendi com o Bonfá e o João Gilberto a não alardear nada. Tem muita espionagem nesse meio. E muito "olho grande" também, principalmente no Brasil, porque alguns críticos mais velhos, que tinham um certo poder quando eu ainda engatinhava no jornalismo, hoje estão desempregados e mentalmente perturbados. Então, ao meu verem ascendendo na carreira de produtor, viajando pelo mundo todo, trabalhando com os maiores músicos do mundo, escrevendo letras para uma lenda viva como o Dave Brubeck, ficam espumando de ódio. Alguns desenvolveram até mesmo o que o meu advogado chama de "obsessão mórbida", passam o dia inteiro tentando me difamar, me caluniar. Volta e meia eu e a Ithamara precisamos acionar o Dr. Técio Lins e Silva ou o Dr. Sergio Bermudes para nos defender desses dementes, veja só que coisa horrível! Por essas e outras, prefiro guardar segredo sobre os futuros projetos. Mas garanto que vem muita coisa interessante em 2006, inclusive um disco tão peculiar que estamos construindo um estúdio em Itaipava, perto da minha casa em Petrópolis, onde fico quando vou ao Brasil descansar, especialmente para atender às necessidades sonoras desse projeto. O termo "novidade" também tem uma conotação relativa na estrutura operacional da JSR, porque trabalhamos com 25 distribuidores diferentes pelo mundo afora. Então, tem disco que já saiu há mais de um ano no Japão, mas ainda nem chegou aos EUA. Outros saíram na Europa, mas ainda não chegaram à Ásia. Aliás, Coréia do Sul e China são mercados em fase de expressivo crescimento para o jazz. Os discos mais recentes de Mario Castro-Neves ("On A Clear Bossa Day") e da dupla Palmyra & Levita com o João Donato ("Here's That Rainy Bossa Day" e "Lucy in the Sky with Bossa Diamondsa"), de grande sucesso no Japão e na Europa, ainda não foram lançados no Brasil. O da Paula Faour ("Cool Bossa Struttin'", já resenhado por você) demorou três anos para chegar ao mercado brasileiro. O disco do Jorge Pescara ("Grooves in the Temple") saiu simultaneamente no Brasil e na Europa, e teve uma vendagem muito boa nos EUA como produto importado pela Dusty Groove, superando todas as expectativas. O CD do Marcelo Salazar, "The Tropical Lounge Project", vai pelo mesmo caminho. Os tais relançamentos de bossa-nova para a RCA, em 2001, começaram a sair agora na Europa, através da Sony-BMG francesa. E esse sucesso me deixa muito feliz, para desespero dos dipluros esclerosados.

1 comment:

Vinylmaniac said...

Caro Arnaldo,

ocupo este seu espaco para, em primeiro lugar, parabeniza-lo pelo excelente blog, em segundo para sugerir uma search engine dentro do blog, facilitaria muito a nossa vida, e por ultimo, reconhecendo em voce uma das maiores autoridades em música brasileira, notadamente o que se lancou no exterior, gostaria de perguntar se voce sabe quem sao os musicos que tocam no disco do Sergio Mendes - Quiet Nights, de 1963, principalmente o violao. Creio que seja o Durval Ferreira, mas ainda nao chegamos (eu e amigos) a um consenso, entao peco a sua ajuda. Um abraco do Brasil