Monday, May 28, 2007

Jorge Pescara na capa da "Bajista" e em turnê européia


JORGE PESCARA WORKSHOP TOUR 2007
Jorge Pescara acaba de retornar de uma tour de 70 dias na península Ibérica, para a divulgação de seu álbum-solo "Grooves in the Temple" (JSR), produzido por Arnaldo DeSouteiro. Com uma extensa agenda de workshops, entrevistas e programas de rádio, Pescara esteve em Lisboa, Cascais, Sintra, Alhandra, Porto, Madri e outras cidades, com apoio da Selenium alto-falantes e Elixir strings. Como resultado, além de concorridos workshops(como na escola de áudio SAE de Madrid, onde, para uma platéia lotada, Pescara ministrou mais de 3 horas de masterclass sobre "contrabaixo no áudio profissional", descrevendo os excelentes resultados sonoros sobre as técnicas de gravação de seu disco).

"Foi uma oportunidade de ouro para aprender e pesquisar mais sobre as culturas artísticas locais, além de conhecer músicos, escolas, lojas de instrumentos e casas de shows. Pude estudar de perto o jazz europeu que é essencialmente diferente do americano", comenta o músico. "Quanto ao trabalho em si, os resultados foram extraordinários, já que pude firmar mais meu nome nestes mercados. Por exemplo, a rádio de jazz Europa-Lisboa FM (90.4KHz) inseriu 3 faixas do meu disco na programação normal. É compensador ouvir seu próprio trabalho executado ao lado de músicas de grandes mestres como Coltrane, Corea, Miles, Pastorius, Metheny... os workshops foram ótimos, também, com um público atento e participante."

Grande parte de tudo isso em decorrência direta da grande repercussão alcançada pela entrevista de Jorge Pescara para a edição de Dezembro de 2006 da revista "Bajista" (da qual foi capa), considerada a "Bass Player" da Espanha.

A seguir, a transcrição da entrevista, que ocupou seis meses da edição de número 26, feita por Carlos Cardoso & Demma K, com tradução de André Cunha Nascimento. Várias faixas do álbum "Grooves in the Temple" foram utilizadas no CD encartado na revista.

ENTREVISTA COM JORGE PESCARA - "B de Bajo, B de Brasil"

Quais foram seus principais trabalhos no passado?
Apesar de paulista de nascimento, no Rio de Janeiro me sinto em casa. Fiz parte do trio do guitarrista, compositor e produtor Celso Fonseca, junto com Wanderlei Silva na percussão, quando abrimos os shows do Stanley Clarke no Metropolitan Hall e no Palace Hall. Também toquei e gravei com Arthur Maia, Dom Um Romão, José Roberto Bertrami, Luiz Bonfá, Cláudio Infante, Mário Castro-Neves, Kiko Zambiancchi, Roberto Menescal, Gilberto Gil, Carlos Lyra, Sylvio César, os músicos da banda de rock Barão Vermelho... muita gente importante. Pode-se encontrar uma seleta lista da minha discografia no www.allmusic.com. Como os discos dos projetos especiais para o selo JSR lançados mundialmente: Brazil All Stars/Rio Strut (Milestone), Friends from Brazi (IRMA) e Street Angels (Mr. Bongo).

Que outros trabalhos, além é claro do Cd solo, desenvolve atualmente?
Excursiono e gravo desde 1998 com a cantora Ithamara Koorax, que desde 2000 sempre é cotada entre as melhores artistas de jazz do ano pela revista Down Beat. Ela é uma cantora fenomenal e a experiência tem sido fascinante. Gravei várias faixas do seu mais recente CD, “Brazilian Butterfly”, a ser lançado ainda este ano. Viajamos pelo Brasil inteiro, Europa e Ásia (onde estivemos recentemente nos festivais de jazz da Coréia). È uma responsabilidade enorme fazer a direção de palco de uma artista deste naipe. O disco do Dom Um Romão, “Lake of Perseverance”, no qual eu gravei várias faixas, obteve ótimos resultados no mundo todo e estou contente por ter a oportunidade de gravar e tocar com um dos melhores bateristas do mundo, segundo a própria Down Beat. Esta gravação rendeu-nos como prêmio na Down Beat o sétimo lugar como melhor grupo de 2001 à frente do Tower of Power! Tenho uma banda pop chamada Linha Amarela com meu primo, guitarrista Cláudio Kote, e pretendemos lançar o material gravado. Procuro lançar um livro novo a cada ano como o “Dicionário Brasileiro de Contrabaixo Elétrico”, livro que possui 472 páginas de informações sobre o instrumento. Desde como ele é construído até um capítulo enorme com mais de 1000 exercícios. Ah! Este livro vem com um CD de exemplos gravados, também. A rede TKT de ensino musical, sistema de franquia com mais de 100 escolas espalhadas pelo Brasil, está com seis volumes do curso de contrabaixo elétrico que escrevi para eles. Também o primeiro volume que se chama “Contrabaixo Completo - para Iniciantes” foi lançado no primeiro semestre de 2004 pela editora Irmãos Vitale. O segundo volume “Contrabaixo Completo – Manual do Groove” será lançado ainda este ano, ao mesmo tempo em que a editora HMP editará o método “Harmônicos” que escrevi para série “Toques de Mestre”. No campo dos equipamentos a maior empresa brasileira de alto-falantes, Selenium, com seu engenheiro Homero Sette Silva desenvolveu em parceria comigo, caixas acústicas sob minhas orientações. Uma tem 4 falantes de 10¨ e um drive. É pequena e confortável, mas com um som fascinante. A outra que tem um falante de 15¨ é a menor caixa para este tipo de falante que já vi. Possuo duas deste modelo. Fácil de transportar e compete com as importadas. Tenho um subwoofer de 18¨ deles também. A StudioR fornece os power amps que alimentam estas caixas. Tenho conversado para desenvolver alguns projetos juntos, eu, o Ruy Monteiro da Studio R e o Homero Sette da Selenium. Uso os excelentes baixos da Condor que são brasileiros, pois são projetados e distribuídos exclusivamente aqui, porém fabricados na Ásia.

Seu CD de estréia, “Grooves in The Temple”, além de muito swing possui belas composições e um invejável time de convidados tais como: Eumir Deodato, Ithamara Koorax, Dom Um Romão, Luiz Bonfá, Cláudio Zoli, Cláudio Infante entre outros, conte nos sobre a produção e sobre reunir tanta gente...
Eu não me imaginava gravando um disco solo. Primeiro porque sempre me vi como um baixista acompanhante, um cara de banda. Segundo que não queria esquentar minha cabeça com os milhares de problemas que envolvem uma gravação solo. Mas o Arnaldo DeSouteiro, cujas dezenas de excelentes produções envolvem desde João Gilberto, passando por Eumir Deodato, Dom Um Romão, Ithamara Koorax, Luiz Bonfá e Thiago de Mello, me incentivou muito. Levamos uns três meses nos reunindo discutindo repertório, músicos e arranjos do disco. Arnaldo é o verdadeiro responsável pela direção que o disco tomou. Senti na pele a importância de se ter um (bom) produtor ao lado durante as gravações. Hoje vejo como ele (Arnaldo) consegue extrair o melhor de cada um. Também ajudou o fato de ter uma gravadora por trás (a americana JSR - Jazz Station Records), o que dá um status ao meu disco que poucos possuem em um disco deste tipo aqui no Brasil: ser prensado e distribuído no exterior como um disco de artista, no caso pela VoicePrint Records da Inglaterra, que colocou meu disco na Europa interia, além da Ásia. Já no caso da reunião dos artistas foi apenas uma questão de ser coerente com minhas convicções musicais. Eu não poderia apenas juntar um quarteto e contar 3, 4 e gravar! Seria inconcebível pra mim. Quero o melhor, e o melhor foi ligar pra cada um dos músicos que eu e meu produtor idealizávamos para cada faixa e convoca-los pra gravação. Daí eu, por exemplo, liguei pro Cláudio Zoli, ele foi e fez um solo indescritivelmente belo na faixa “Miles-Miller”. Você percebeu como meu disco tem instrumentos analógicos? Efeitos, instrumentos exóticos como cítara, trompa, fagote e oboé, além de keyboards do tipo Mellotron, Moog, Matrix, Fender Rhodes, etc... simplesmente amo a sonoridade real destes instrumentos. A lista de músicos que participaram do CD é enorme. Somente pra citar alguns: Dom Um Romão (bateria, percussão), Ithamara Koorax, (vocais), Luiz Bonfá (violão), Eumir Deodato (Fender Rhodes), Laudir De Oliveira (percussão), Paula Faour (mini moog), Nick Remo (bateria), Sidinho Moreira (percussão), João Palma (bateria), Arnaldo DeSouteiro (produção musical para a JSR), Doug Payne (liner notes) e Pete Turner (capa), cujas fotos estão em discos de John Coltrane, Weather Report, Ray Charles, Steely Dan, George Benson e todos da fase áurea da CTI Records. Aliás, a capa do meu CD consta no livro “Colours of Jazz” de Pete Turner, que está sendo lançado neste momento.

No CD, além de suas composições, você fez tributos a Tony Levin, Marcus Miller, Miles Davis e Jaco Pastorius. Em quais fatores eles te influenciaram?
Bom, o super contrabaixista Tony Levin é pra mim, minha maior inspiração como músico nestes últimos quinze anos. Seu trabalho com Peter Gabriel, King Crimson, Pink Floyd, Yes, Dire Straits, Alice Cooper, John Lennon, seus discos solo, enfim, acompanho sua carreira há um bom tempo... (risos) Tony é um pesquisador de timbres inusitados, domina o uso dos efeitos muito bem, como quando ele liga o Big Muff e entorna um caldo de distorção nos graves do Electric Upright. É um mestre completo do Stick Bass, além de ter inventado o Funk Fingers, que é um par de baquetas pequenas de percussão, adaptadas aos dedos indicador e médio para bater nas cordas e substituir o “slap” de uma forma mais original. Compus a música “Groove in the Temple” para homenageá-lo. Já Marcus Miller tem o R&B nos dedos! O cara é um fenômeno com seus grooves modernos de black music e um produtor sensacional. Miles, por seu lado, é indescritível, assim Miles Miller é... uma composição que tenta expressar estes dois mundos. É interessante notar que minhas principais influências no contrabaixo são as mais inusitadas e inesperadas que se possa imaginar. Não tenho muita predileção para os badalados baixistas da moda. Com raras exceções, eu respiro todos os dias: Tony Levin, Anthony Jackson, Mick Karn, Percy Jones, Chris Squire, Ron Carter, John Giblin, Larry Klein, John Paul Jones, Mark Egan, Pino Palladino, Doug Lunn e Alphonso Johnson.

E como surgiu a idéia de incluir “Kashmir” do Led Zeppelin e “Power of Soul” do Hendrix? Como foram arranjadas?
Como disse anteriormente, o repertório foi fechado junto com o Arnaldo DeSouteiro, quem, aliás, foi o responsável direto pelas escolhas do Led Zeppelin e do Hendrix. Inclusive ele direcionou o arranjo da Power of Soul dizendo: “esta tem de ser meio eletrônica com rock!” Chamo este arranjo de: drum’n bass-rock-psicodélico-apocalíptico (risos). Já no caso da Kashmir, eu expressei meu lado roqueiro, por isso fiz os famosos riffs somente com diferentes baixos, sem guitarra. O uso dos dois diferentes saxes soprano e tenor foi para tentar aproximar a sonoridade do Robert Plant e sua voz. Tive a sorte de ter o pessoal da banda Barão Vermelho disponível pra gravar esta faixa. No final da música eu pedi pro Guto Goffi manter a condução de bateria , mas sem o bumbo. Assim eu coloquei rapidamente os funk fingers (baquetas) nos dedos e fiz um groove modal (dó maior e lá menor) pra valorizar os solos de saxes. O bumbo, que você jura que está ouvindo, é na verdade o funk fingers.

A faixa de abertura tem um sabor que mescla o funk balançado com frases tipo Roland Kirk, como surgiu a idéia do barítono neste tema?
Como as coisas foram muito democráticas nesta produção, a maior parte deste arranjo é do Arnaldo, mas os músicos fui eu quem escolhi. No caso deste sax, a idéia me veio direto, por eu ser fã incondicional do Widor Santiago (que tocou com Airto Moreira & Flora Purim, Milton Nascimento, Azymuth) e também porque eu prefiro os saxes graves como barítono, ao invés do cansativo e batido sax alto... não gosto de instrumentações muito previsíveis, por isso pedi pro Widor: “sole aqui...” e ele respondeu: “mas com o barítono?” e eu completei “é!”. No final ele me confessou: “Pescara, adorei esta gravação, mas ninguém nunca me pediu pra solar no barítono”. O groove desta música mostra um pouco a cara do Dom Um Romão. Ele é referência mundial. Gravou com Weather Report, Frank Sinatra, Blood Sweat & Tears, Stanley Clarke... é conhecido e amado no mundo inteiro. Precisa dizer mais?

Como foram produzidos os sons viajantes em “Funchal”?
Ah! Esta é fácil... um baixo piccolo fretless da Cheruti com 25 polegadas de extensão, ou seja, quase do comprimento de uma guitarra, mas com a afinação em DADF# (do grave ao agudo). Usei alguns efeitos, porque amo estas maquininhas analógicas, além de um Hi-EBow para o sustain infinito. Como o arranjo que fiz é meio hindu, com escalas exóticas e o uso de intervalos em comas (microtons) eu tentei, com a ajuda do Ebow, aproximar o piccolo ao som de um instrumento de sopro indiano qualquer. Cláudio Infante arrasou usando tablas e pandeirão árabe.

E sobre a dupla homenagem à Jaco Pastorius em “The Great Emperor of the Bass Meteor”?
Pastorius foi o cara que abriu as portas, agora nós temos o dever de saber entrar... todo mundo faz homenagens pra ele, mas eu tive uma experiência transcendental inusitada certa vez e quis agradecê-lo pelas boas energias.

Como foi gravar com lendas como Dom Um Romão e Eumir Deodato?
Com Eumir, tive poucas, mas ótimas experiências. Sua sonoridade é bem peculiar. Um teclado forte e presente, como no rock. Fiquei um pouco preocupado em re-arranjar uma música de um dos maiores arranjadores do mundo. Quando escolhemos Black Widow, o Arnaldo DeSouteiro me pediu pra fazer o arranjo e eu me assustei. Pensei que o próprio Eumir iria me entregar o arranjo pronto. Encarei o desafio e depois foi glorificante ouvir os elogios do próprio Eumir que telefonou de New York só pra me cumprimentar, dizendo: “belo trabalho senhor arranjador!” (risos). Com Dom Um a história foi um pouco mais ampla, pois gravei três discos com ele, além de excursionar durante um bom tempo. As viagens sempre apresentavam surpresas, pois Dom Um era um cara muito divertido. Dom Um Romão tocava com tamanha energia que sua entrega era total no palco. A forma como ele tocava bateria ao estilo Elvin Jones fez história na música mundial. Acho que todo garoto deveria estudar um pouco da linguagem do Dom Um Romão pra ouvir como se faz um groove verdadeiro. Hoje temos caras muito técnicos, porém muito frios em emoção. Não vejo a música como algo a ser tratado em laboratório, música tem que emocionar o coração, não o cérebro. O músico é aquilo que ele ouve. Se ouvir boa música o tempo todo, será um bom músico. Se, por outro lado, ficar preocupado em impressionar os outros, será apenas um musicólogo, um cara de circo cheio de malabarismos e sem vida!

Quantos e quais baixos foram usados nas gravações? Quais as sonoridades pretendidas com cada um deles?
No que se refere ao meu set up nestas gravações posso citar na escalação o baixo Condor BC4000 para os pizzicatos, o Fender Jazz Bass vintage 74 model Marcus Miller signature nos slaps, o Condor BC600, 6 cordas fretless, com captação ativa, nas melodias, O StickBass Chapman Enterprise de dez cordas para os tappings, o Vertical Bass Electric Upright do DiCarmo-SP para extrair a sonoridade do acústico, o piccolo fretless Cheruti-RS para as melodias de ponta e os harmônicos, além do Hi-EBow para o sustain infinito e pra imitar sopros indianos, o Baixolão Condor CB-1, cinco cordas, para um timbre de madeira, o Condor BC6000, seis cordas, para uma sonoridade mais moderna e o DiCarmo oito cordas fretless afinado em pares de oitavas, quintas ou quartas justas. Este último baixo possui cordas duplas sendo quatro pares de cordas padrão ao lado de cordas piccolo. É pra uma coisa mais cítara com as cordas ressonando o tempo todo, ou mesmo como uma viola caipira. Todos os baixos foram equipados com as cordas da Elixir. No campo dos efeitos e apetrechos periféricos usei palhetas da Jim Dunlop .010¨ quando quis uma sonoridade mais radical e vários pedais analógicos sendo um Cry Baby Jim Dunlop, Um MuTron III, o Fuzz Big Muff, além do Octave Boss, o Bass Synthesizer, FM4 Line6, SynthWah Digitech, Korg G5 e por aí vai... Nos shows este setup é completado com caixas Selenium (2x15¨, 4x10¨+horn), além da potência da StudioR SX ADL 1400 com EQ, Comp e Crossover embutido. Usei este set para gravar algumas coisas microfonadas para este disco e foi uma experiência fascinante

Quais outros equipamentos de seu set-up foram utilizados na gravação?
Gravei em 4 ADAT’s, numa mesa Allen & Heat de 48 canais, com pres valvulados maravilhosos e alguns Lexicons fazendo algumas pequenas edições no Pro-Tools. Já as mixagens foram feitas em uma mesa Amek de 48 canais. Usei alguns periféricos do estúdio Century, mas grosso modo a sonoridade veio mesmo dos meus dedos e dos meus equipamentos.

E o interesse pelo tapping vem de onde?
Boa pergunta... isto pode ter iniciado vendo um antigo trecho de show de Peter Gabriel onde Tony Levin usava um Stick. O certo é que, durante os anos 90 eu fui absorvido ouvindo Tony, Stu Hamm, Billy Sheehan e principalmente Michael Manring. Daí foi quase automático buscar o Stick. Recentemente tive a grata surpresa de ter contatado pelo Megatar que acompanhando meu trabalho à distância, ofereceu-me usar seu modelo mais avançado, um ToneWeaver 12 strings que acabo de receber. Pretendo gravar um disco inteiro com ele nos próximos meses.

Já há algum tempo você trabalha com a nova musa do jazz, a cantora brasileira Ithamara Koorax, conte sobre como é tocar com ela e também da participação em seu cd:
Ithamara não está sendo eleita desde 2000, pela revista Down Beat, uma das melhores cantoras do mundo, por acaso. Quem tem acesso ao seu trabalho percebe que ela tem um dom incomum. Veja, no Brasil temos pouca tradição de verdadeiros cantores. Pense e me diga quantos nomes masculinos ou femininos cantam de verdade. Elis Regina passava uma emoção que não tinha tamanho. Milton Nascimento, Gal Costa… Emílio Santiago é uma potência de voz. Guilherme Isnard do ZERØ, grupo de rock que fiz parte por dez anos, tem uma das melhores vozes do pop rock nacional. Mas são poucos. Temos compositores, arranjadores e músicos maravilhosos, mas no Brasil não temos tradição de cantores na acepção da palavra. Alguns são importantes entertainers, mas não são bons cantores. Ithamara Koorax é uma exceção. Seu alcance de voz vai de um grave afinadíssimo de barítono ao extremo agudo soprano. Seu jeito todo especial de swingar no jazz com fraseados que exploram desde o be bop até o mainstream são marcas registradas. Nunca vi alguém alterar a métrica rítmica dos compassos com tamanha autoridade. Ela consegue atrasar ou alterar o andamento das melodias sem perder nada do feeling, mas nós temos que ficar atentos, porque é difícil acompanhar uma cantora deste porte. Nos shows da atual turnê fazemos um duo de baixo e voz com Bye Bye Blackbird onde ela brinca com os agudos de forma que sempre me arrepia. Em Got To Be Real, um clássico da disco music, o Arnaldo DeSouteiro preparou um arranjo onde a Ithamara segura uma nota aguda durante uns oito compassos e o público delira com sua capacidade de respiração e manutenção da entonação. Afora que ela é um charme só! Quanto à participação no meu cd, uma foi Power of Soul, onde ela fez o coro junto com o Sérgio Vid e um solo que mais parece uma guitarra de rock, além de cantar Laura Lee (segunda faixa do disco) junto com o Eumir Deodato e minha tentativa de acompanhá-los no vocal (risos). Temos viajado muito nestes oito anos que estou em seu grupo. Aliás, a formação atual do trio de Ithamara com José Roberto Bertrami (Azymuth) de volta aos keyboards e Haroldo Jobim na bateria é uma das melhores que participei.

Quais os projetos para o futuro?
Além de preparar o próximo trabalho solo, espero ter tempo para estudar mais, principalmente o Megatar ToneWeaver que acabo de receber. Planejo organizar, em conjunto com uma produtora que trabalha comigo, uma série de workshows pelo país divulgando os livros, o Cd e os equipamentos. Lançar mais alguns livros e discos... talvez um DVD... continuar sendo feliz com minha família... estar em paz na senda com o “Deus da minha compreensão”... bom, são muitos os planos! (risos)

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